A revista do carioca na internet

 
 

 

 

03/09/2018

 
Um dia maravilhoso na Ilha do Governador

Convidada no início desta semana por uma talentosa escultora (que por acaso é minha esposa) para visitar sua exposição realizada na Ilha do Governador, eu relutantemente aceitei o convite.

A pequena senhora estava exibindo sua deusa egípcia, "Nefertite" (foto à direita) em uma exposição de arte chamada "A arte não tem limite de idade".

Quando digo que "hesitei" em visitar a Ilha, é porque tudo que li em jornais cariocas sobre essa área próxima ao Aeroporto Internacional do Rio, é que a Ilha é, supostamente, um paraíso de traficantes e tiroteios ... (como se minha amada Copacabana fosse uma ilha de paz!)

Felizmente, o que encontrei na Ilha foi um dia maravilhoso, inesquecível e tranquílo, que provou que eu estava enganado sobre esse bairro carioca acolhedor e calmo. Devido a estar isolada das movimentadas ruas do Rio de Janeiro, a Ilha também possui atividades artísticas especiais e um grande potencial para atrair turistas de todo o mundo.


Um Frescão (ônibus com ar condicionado no inverno, só no Rio de Janeiro mesmo!...) partindo da Almirante Barroso, no centro do Rio, levou nosso trio de visitantes para o bairro do Cocotá. Os cariocas me dizem que "cocota" é uma gíria para descrever uma jovem atraente, mas na verdade "Cocotá" é uma palavra indígena que nomeia este bairro de Ilha, onde está localizada a Biblioteca e Centro Cultural Euclides da Cunha (foto à direita) que hospeda a exposição de arte. 
 

Eu gostaria que tivéssemos uma biblioteca tão bem equipada e repleta de bons livros (de papel!) em Copacabana, como eu encontrei em Cocotá. A biblioteca me lembrou a que frequentei quando adolescente em Flushing, Nova York ou na biblioteca Donnell em Manhattan, muito antes desses tempos de Iphones. A Bibliotaca é uma ilha de tranquilidade intelectual onde se pode ler, meditar, ver uma exposição de arte ou quando disponível, assistir a concertos e palestras no adorável auditório da biblioteca.

Uma vantagem do meu sotaque americano (apesar de tantas décadas no Rio) é que muitas vezes eu sou tratado como um visitante que acabou de chegar de outro planeta.
 
Deolinda Mário Mello de Avelar, chefe do Centro Cultural em homenagem a Euclides da Cunha, o autor de  "Os Sertões", foi minha graciosa guia pessoal. Ela me mostrou uma biblioteca com mais de 11.000 livros,  computadores grátis para o público, um centro infantil, wifi, uma exposição de pinturas baseadas na linguagem especial do esperanto de Renaud Heymameek, e a arte simbólica nativa de Guilherme Baptista, ambos os moradores da Ilha. Vários instrumentos indígenas - incluindo um couro cabeludo/cabeça que pode ser tocada como uma espécie de harpa judaica ou piano primitivo -  também foram apresentados.

O pequeno mas confortável auditório também foi uma surpresa bem-vinda. As orquestras sinfônicas do Rio, escolas de música, os grupos de teatro, dança e música popular deveriam começar a pensar em incluir Cocotá nas suas listas de espaços para apresentações.

Imagine Bach, Beethoven, Brahms ou Villa Lobos em Cocotá?
 


 Quanto à exposição principal, a Profa. Elle de Mattos me disse: "A arte não tem idade é um ateliê/grupo de um grupo chamado" De bem com a Vida "que celebrou seu décimo oitavo aniversário em abril passado, administrado pela Pastoral da Terceira Idade da Igreja Nossa Senhora da Ajuda. Nosso grupo também desenvolve atividades como Yoga, Dança para Idosos, pintura e bazar de costura. Quase tudo está disponível gratuitamente. Meus alunos são principalmente idosos e incluem uma mulher de 93 anos de idade."


"Todos os anos, a Biblioteca Municipal Euclides da Cunha promove  mensalmente a exibição de trabalhos artísticos. Também organizamos cerimônias à noite quando os alunos recebem diplomas de formatura. A Ilha do Governador é cheia de talentos ... é uma pena que o governo do Brasil tem pouco interesse em cultura, mas temos fé que um dia eles terão interesse ", acrescenta a Profa. Elle.


Apesar do baixo nível de apoio governamental à cultura, a Profa. Elle continua seus estudos de escultura com o professor Couto na Sociedade Brasileira de Belas Artes na Rua do Lavradio, Lapa, que é liderada pela presidente Therezinha Hillal.


Nosso almoço no Cocotá foi na Confeitaria Linda,  também uma surpresa com suas refeições frescas e deliciosas, tranquilidade e preço acessível.


 

 

   

Nosso grupo já estava prestes a voltar para a cidade grande, quando Elle de Mattos insistiu em nos levar pessoalmente em uma visita guiada pelas ruas sinuosas da Ilha, incluindo uma parada em sua linda casa que se assemelha a uma pequena fazenda, cheia de plantas e frutas.

 

Os barcos de pesca e pescadores da Ilha, lançando suas varas de pescar no mar, ou recolhendo suas pequenas embarcações, lembraram a este colunista cenas de Paraty, Fortaleza ou Bahia.

A pitoresca Igreja da Sagrada Família, no alto do Morro do Ouro, seria um excelente local para um filme histórico ou um concerto de musica erudita apresentando Bach ou Handel.
 

E então chegamos ao ponto turístico mais incomum que este viajante do mundo que aqui escreve já viu: o Maracajá. A palavra se assemelha a "Maracujá", a famosa planta que faz bebidas ou pudins que acalmam os nervos.

 

Mas Maracajá, na praia do Bananal, é a escultura de um gato selvagem que fica no topo de uma pedra, olhando para o mar como se fosse o imperador do mundo (foto à esquerda). Segundo a lenda, uma índia pertencente à tribo da Ilha, passeava diariamente na praia do Bananal acompanhada de seu bichinho, um maracaja / gato selvagem, para banhar-se nas águas. Um dia, a índia mergulhou no mar, e desapareceu nas águas. E o gato desde então, permanece petrificado e congelado como uma estátua, eternamente à espera de sua dona.

 

Esta lenda inspirou os moradores locais a construir um monumento em sua homenagem, esculpida pelo pintor Galdino Guttman Bicho (1988-1955), que morou na Ilha por muitos anos.

 

Todos ficamos maravilhados com essa escultura, tirando selfies de todos os ângulos. E também começamos a nos perguntar como vivemos há tantos anos no Rio de Janeiro e nunca tínhamos visto o Maracajá, nem visitado a Ilha de Governador antes deste dia tão especial.
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Texto: Harold Emert (contato)

 

Tradução: Roberto Carelli

 

 

(textos publicados nas colunas deste portal são de inteira responsabilidade de seus autores. Dúvidas ou questões, entrar em contato diretamente com o autor)

 

 


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